Jogo da Amarelinha, Julio Cortázar.
- Encontraria a Maga? Tantas vezes bastara-me chegar, vindo pela Rue de Seine, ao arco que dá para o Quai de Conti, e mal a luz cinza e esverdeada que flutua sobre o rio me deixava entrever as formas, já sua delgada silhueta se inscrevia no Pont des Arts, por vezes andando de um lado para o outro da ponte, outras vezes imóvel, debruçada sobre o parapeito de ferro, olhando a água. E era muito natural eu atravessar a rua, subir as escadas da ponte, dar mais alguns passos e aproximar-me da Maga, que sorria sempre, sem surpresa, convencida, como eu, de que um encontro casual era o menos casual em nossas vidas e de que as pessoas que marcam encontros exatos são as mesmas que precisam de papel pautado para escrever ou que começam a apertar pela parte de baixo o tubo de pasta dentrifícia.
O Amor é Fodido, Miguel Esteves Cardoso.
- Quanto mais vou sabendo de ti, mais gostaria que ainda estivesses viva. Só dois ou três minutos: o suficiente para te matar. Merecias uma morte violenta. Se eu soubesse, não te tinha deixado suicidar com aquelas mariquices todas. Aposto que não sentiste quase nada. Não está certo. Eu não morri e sofri mais do que tu. Devias ter sofrido. Porque eras má. Eu pensava que não. Enganaste-me. Alguma vez pensaste no que isso representou na minha vida miserável? Agora apetece-me assassinar-te de verdade. É indecente que já estejas morta.
Se um Viajante numa Noite de Inverno, Italo Calvino.
- Você vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo a sua volta se dissolva no indefinido. É melhor fechar a porta; do outro lado há sempre um televisor ligado. Diga logo aos outros: “Não, não quero ver televisão!”. Se não ouvirem, levante a voz: “Estou lendo! Não quero ser perturbado!”. Com todo aquele barulho, talvez ainda não o tenham ouvido; fale mais alto, grite: “Estou começando a ler o novo romance de Italo Calvino!”. Se preferir, não diga nada; tomara que o deixem em paz.
O Jardim do Diabo, Luis Fernando Verissimo.
- Me chame de Ismael e eu não atenderei. Meu nome é Estevão, ou coisa parecida. Como todos os homens, sou oitenta por cento água salgada, mas já desisti de puxar destas profundezas qualquer grande besta simbólica. Como a própria baleia, vivo de pequenos peixes da superfície, que pouco significam mas alimentam.
A Lua Vem da Ásia, Campos de Carvalho.
- Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvido por cinco votos a dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo.







11 Comment
< ![CDATA[Nada, nada ganha do começo do Calvino... nem mesmo o amigo do Melville que me fez dar tanta risada.]]>
< ![CDATA[Ótimos inícios Inagaki, especialmente o do Calvino, num dos meus livros preferidos, e o do Veríssimo, que eu não conhecia.
Coincidentemente, estou publicando um Top idêntico (e em partes)há algumas semanas lá no meu blog. Depois se puder dê uma olhada e veja no que concorda e no que discorda...
Abraço]]>
< ![CDATA[Tuma, só encontrei no seu blog o começo de "O Homem Sem Qualidades". Sugiro que você dê os links dos demais textos da sua série em seus posts, pra que quem pegou o bonde andando se situe sobre o seu Top 5. :)]]>
< ![CDATA[Ah, obrigado pela sugestão. Erro de iniciante, hehehe.
Agora já ficou mais fácil.
Abraço]]>
< ![CDATA[Pra mim, o começo de Lolita é sensacional]]>
< ![CDATA[Adoro a abertura do Pêndulo de Foucault, do Umberto Eco:
Foi então que vi o Pêndulo.
A esfera, móvel na extremidade de um longo fio fixado à abóbada do coro, descrevia suas amplas oscilações em isócrona majestade.]]>
< ![CDATA[Ah, eu sei que o que conta aí é abertura, mas o Jogo da Amarelinha tem também o melhor capítulo de romance ever:
"
"Toco tua boca, com um dedo toco a borda de tua boca, vou a desenhando apenas, como se saísse de minha mão, como se pela primeira vez se entreabrisse e me basta fechar os olhos para desfaze-lo todo e recomeçar, faço nascer cada vez a boca que desejo, a boca que minha mão escolhe e te desenha na cara, uma boca escolhida entre todas, com soberana liberdade escolhida por mim, para desenha-la com minha mão em tua cara e que por um azar que não busco compreender coincide exatamente com tua boca que sorri por debaixo da que minha mão desenha.
Me olhas, de perto me olhas, cada vez mais de perto e então brincando com o ciclope, nos olhamos, cada vez mais de perto e os olhos se agrandam, se aproximam entre si, se superpõe e os ciclopes se olham respirando confundidos, as bocas se encontram e lutam mornamente, mordendo-se com os lábios, apoiando apenas a língua nos dentes, brincando em seus recintos onde um ar vai e vem com um perfume velho e um silencio. Então minhas mãos buscam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente a profundidade de teu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância escura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos em um breve e terrível absorver simultâneo do alento, essa instantânea morte é bela, e há uma só saliva, e um só sabor de fruta madura e eu te sinto tremer contra mim como uma lua na água."
Tem coisa mais linda? Ay.]]>
< ![CDATA[Adorei a idéia! Calvino foi o melhor...]]>
< ![CDATA[é . faltam lolita, moby dick e tales of two cities( este o melhor)]]>
< ![CDATA[o de lolita tinha que estar na lista.]]>
< ![CDATA[O início de "Metamorfose", de Kafka, é o melhor de toda a literatura mundial.]]>