É curioso constatar como alguns dos músicos mais conhecidos do Brasil já cursaram faculdades de Arquitetura. Chico Buarque, por exemplo, cursou o primeiro ano da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP em 1963, um ano antes do golpe de 64. Em entrevista concedida a Fernando Eichenberg para o Terra Magazine, o filho de Sérgio Buarque disse: “Eu não ia ser advogado, nem médico, nem engenheiro, administração de empresas, e fui para arquitetura, que tinha alguma coisa a ver com arte. E naquela época tinha aquela empolgação, arquitetura era concorrida, muita gente moça queria ser arquiteto por causa de Brasília, de Oscar Niemeyer. E a escola era muito boa, os professores eram o Paulo Mendes da Rocha, o Vilanova Artigas, e o meio universitário era estimulante”.
Outro ilustre nome da MPB que cursou Arquitetura foi o Maestro Antônio Carlos Jobim, que também não demorou muito para constatar que seu futuro não estava exatamente nas pranchetas. Em matéria publicada no jornal Tribuna da Imprensa em 1957, Tom afirmou: “Entrei para a faculdade e cheguei a cursar o primeiro ano. Porém a música era para mim um apelo irresistível, e descobri que os meus castelos jamais seriam construídos com cimento e tijolos”.
Guilherme Arantes é mais um que cumpriu a mesma trajetória, tendo abandonado a FAU em 1975. Eis o seu relato: “Minha mãe não aceitava que eu fosse músico. Então sugeriu que eu fosse fazer arquitetura. Até que tentei, mas não agüentei e acabei largando a faculdade”. Humberto Gessinger, Francis Hime (que inclusive gravou um álbum em 2006 intitulado “Arquitetura da Flor”), Herbert Vianna (que trancou o curso de Arquitetura na UFRJ no terceiro ano) e Fernanda Abreu são outros exemplos dessa curiosa recorrência de músicos que chegaram a se aventurar pelo mundo dos croquis, desenhos e perspectivas.
A mais recente história de relação entre a MPB e a arquitetura é a canção “Linhameyer“, composta pela dupla George Israel e Carlinhos Brown, que buscou inspiração em uma coleção da H. Stern, de jóias inspiradas pela obra do arquiteto Oscar Niemeyer, que fará 101 anos no próximo dia 15 de dezembro. A música, que conta ainda com a participação do cello de Jaques Morelenbaum em sua gravação, ganhou ainda uma bela animação dirigida por Andrés Lieban.
A respeito de Oscar Niemeyer, lembro ainda de um texto escrito por Chico Buarque, grande admirador da obra do criador de Brasília, do edifício Copan e do Conjunto Arquitetônico da Pampulha. Nele, Chico compara as obras de Niemeyer com as canções de Tom Jobim, afirmando: “Depois larguei a arquitetura e virei aprendiz de Tom Jobim. Quando minha música sai boa, penso que parece música de Tom Jobim. Música de Tom, na minha cabeça, é casa do Oscar”.








8 Comment
< ![CDATA[Chico é um gênio, Jobim é um gênio (no presente mesmo), Niemeyer é um gênio...
Mas... sou só eu ou é um pouco estranho o grande Oscar, comunista tão convicto, ceder suas obras para serem transformadas em jóias caríssimas de uma joalheria?]]>
< ![CDATA[Legal!! Não conhecia essa frase do Chico sobre as músicas de Tom Jobim serem como as casas de Oscar Niemeyer. Vai ver que arquitetar música deve ser como poemar paredes!!!]]>
< ![CDATA[Tuma, o caso é que a H. Stern é uma empresa brasileira, que há anos lança coleções temáticas, divulgadas no mundo inteiro, inspiradas nas obras de outros brasileiros como os irmãos Campana, o próprio Carlinhos Brown e o Grupo Corpo de Dança. Creio que é por isso que Niemeyer, ciente também do respeito que sua obra teria durante a concepção da coleção de jóias, deu a sua autorização.
Roberta, ótima a sua frase sobre arquitetar músicas e poemar paredes. Isso dava poema... :)]]>
< ![CDATA[Bom, eu não conhecia essa parte da história. Agora faz mais sentido... acho que o fato de ser uma empresa brasileira pesou mais para ele.]]>
< ![CDATA[Inagaki, você esqueceu que Falcão - é, aquele mesmo de "I'm not dog no" - formou-se em arquitetura, acho que na UFC.
Só para manter a relação entre gênios da música e arquitetura, hehehe.]]>
< ![CDATA[Rá! Valeu pela informação adicional a respeito do mestre Falcão, George! :)]]>
< ![CDATA[Niemeyer mesmo disse, que arquitetura infelizmente ainda é acessível só pra burguesia. Ele não é só um comunista, ele é consciente, que as custas deles, é que se vive, e se ganha dinheiro pra ajudar quem preicsa... Tem mais é que fazer jóia mesmo, carro, ropa, CD, bola de cristal, e tudo mais..... tem mais é que vender mesmo.....rs]]>
< ![CDATA[gostaria de mas tempo para conhecer e opinar]]>