Em voga por conta do sucesso da minissérie Maysa – Quando Fala o Coração, baseada na biografia atribulada da cantora, o aumento do interesse na obra de Maysa Matarazzo fez com que muitos passassem, enfim, a conhecer as interpretações de uma das maiores divas que a MPB já teve. Mas, por mais que biógrafos e dramaturgos busquem esmiuçar as histórias de sua vida, não há registro mais preciso de todas as emoções, contradições e sentimentos de Maysa que não sejam as suas próprias palavras.
Em 1961, a revista Manchete propôs o seguinte desafio à compositora de “Meu Mundo Caiu”: fazer uma autoentrevista na qual ela se comprometeu a responder todas as perguntas para as quais nenhum repórter havia conseguido respostas. O resultado: declarações desconcertantes, marcadas pela sinceridade passional que marcou toda a vida e carreira desta intérprete que está sendo redescoberta por toda uma geração graças à minissérie dirigida por seu próprio filho, Jayme Monjardim. Confiram a seguir os petardos verbais desferidos por esta fascinante cantora: Maysa Figueira Monjardim Matarazzo.
Você é masoquista?
Às vezes. Considero masoquismo aturar sem queixas uma porção de pessoas. Detesto gente burra e vivo me encontrando com elas.
Se é só este o seu masoquismo, por que você vive atritando fitas de papel com os dedos, até fazê-los sangrar?
Até sangrar é exagero. Tenho este hábito desde menina. Acho que é uma preparação inconsciente para enfrentar as dores que o destino sempre me reserva. Dor física, aliás, jamais me fez medo. Tenho medo apenas do que não depende de mim: amar e não ser amada, por exemplo.

A bela capa de um compacto que Maysa gravou no final de 1967, lançado na Espanha no ano seguinte.
Seu êxito dependeu apenas de seu talento?
Já fiz muitas concessões para obter sucesso e hoje estou profundamente arrependida. Agora não há fabricante de discos que me faça gravar o que eu não sinta.
Caso fosse possível você deixaria de cantar imediatamente?
Não, para a gente deixar de fazer qualquer coisa que nos afirme é preciso substituí-la, sempre, por algo melhor. Para mim, a única coisa melhor do que cantar seria… cantar só para quem eu amasse.

Maysa ao lado de André Matarazzo, seu primeiro marido, considerado o grande amor de sua vida, com quem se casou aos 17 anos de idade, e de quem se separou em 1957.
Eu sei que você não “ama” seu atual publico no Copacabana. Mas pelo menos gosta dele?
Por enquanto, não. Grã-fino, geralmente, não gosta de musica e muito menos de artista brasileiro.
É por isso que você bebe minutos antes de cantar?
A bebida é a bengala de um velhinho que mora em minha personalidade. Mas tenho certeza de que uma criança que existia em mim, antes de tantas coisas acontecerem, um dia voltará. Só então saberei quem sou.
Mas você não bebe somente antes de entrar em cena, não é? Por que você bebe de modo geral?
Primeiro porque quero. Depois porque trabalho para pagar o que eu bebo. Finalmente, porque tenho senso de autocrítica. Muitas vezes reconheço-me insuportável e eu só suporto os insuportáveis bebendo.
Você acredita que um dia deixará o álcool?
Deixarei a bebida quando encontrar o amor. Mas para amar é preciso estar preparada. Quero, preciso e ainda amarei.

Maysa Matarazzo (1936-1977) inspirou o poeta Manoel Bandeira a escrever os seguintes versos: “Os olhos de Maísa são dois não sei quê/ Dois não sei como diga/ Dois Oceanos Não-Pacíficos”.
Você se sente sozinha? Tem medo de ficar sozinha?
Pavor. Quando estou só, tenho certeza de que sou maior do que eu mesma e isto me apavora. Ninguém deve conhecer a sua própria dimensão.
Você já tentou se matar algumas vezes. Em qual delas foi sincera?
Em todas. Mas em nenhuma eu quis morrer imediatamente. Por isso morria pouco. Só uma coisa me faria morrer até o fim: o amor.
Texto relacionado: “Maysa, uma cantora solitária em uma multidão de amores”.








3 Comment
< ![CDATA["Eu não sou uma Matarazzo. Meu nome é Maysa Monjardim", ela diria sobre o post.]]>
< ![CDATA[Bem ponderado, Eduardo. Se bem que a capa do compacto que reproduzi no post é de 1967, bem posterior ao seu divórcio com o André Matarazzo...]]>
< ![CDATA["Grã-fino, geralmente, não gosta de musica e muito menos de artista brasileiro."
Daí a importância de mandá-los calar a boca . !]]>